que com eles viveram essa epopeia por terras de África chamada Guerra do Ultramar. Faz hoje 36 anos que a iniciavam quando o Niassa, às 4 da manhã, parou as suas máquinas e todos acordaram com o silêncio e o calor húmido da noite Africana. sexta-feira, 28 de dezembro de 2007
Faz hoje 36 anos que chegamos à Guiné
que com eles viveram essa epopeia por terras de África chamada Guerra do Ultramar. Faz hoje 36 anos que a iniciavam quando o Niassa, às 4 da manhã, parou as suas máquinas e todos acordaram com o silêncio e o calor húmido da noite Africana. Reunidos no "Vilas" em Leça do Balio, junto com três dezenas de outros camaradas, numa festa de Natal da mini-tertúlia de Matosinhos do Blogue do Luis Graça e Camaradas da Guiné, estes velhos amigos ergueram o seu copo de whisky (um whisky "Monks" raro, ainda trazido da Guiné em 74 pelo Barroso) e os três tiveram um pensamento muito especial para todos quantos partilharam com eles esses anos de 71 a 74 por terras da Guiné.
Um Bom Ano cheio de saúde e coisas boas são votos sinceros do
António Barroso
Almeida e Silva
Alvaro Basto
27 de Janeiro de 2007
sexta-feira, 21 de dezembro de 2007
O NOSSO CRUZEIRO DE NATAL
Meus caros
Estão a cumprir-se 36 anos sobre a data de embarque para o cruzeiro memorável para a Guiné, em que a maior parte de nós teve o pr
ivilégio de participar.
ivilégio de participar. O "paquete" Niassa de seu nome, foi equipado a preceito como bem se recordam, com camaratas tipo andaime num porão, onde mais de 500 jovens partilhavam essa inovação tipo "open space" (embora praticamente não houvesse escotilhas (?) para o exterior) e que só agora está na moda, para transporte de clandestinos no sentido inverso!
A carga de melaço com que o outro porão foi carregado, e que só por maldade ou manifesto mau gosto, alguns disseram ter um cheiro horrorosamente enjoativo (a maledicência é realmente um característica dos portugueses...).
A data, que foi alvo das mais elaboradas cogitações pelos altos cérebros (?) das forças Armadas da altura, não poderia ter sido melhor escolhida. Como seria possível aos mais de 500 ex-militares, respectivas famílias e amigos, ainda hoje terem esta recordação tão viva e forte desse evento. Todos temos garantidamente inumeras recordações desse memorável cruzeiro, mas permito-me recordar as que ainda hoje sinto como mais marcantes.
Aquela sessão de cinema ao ar livre com a projecção do filme "A Batalha das Ardenas" (escolhido garantidamente pelos tais cérebros (?) brilhantes). Sim, quem tem dúvidas sobre o enorme efeito moralizador, que um filme de guerra teria sobre aqule enorme grupo de jovens ansiosos por saber como era a guerra? (os tais maledicentes lá vieram com o argumento de que se tratava de uma batalha mais adequada para a cavalaria, porque quase só metia tanques, e que nós eramos tropa de artilharia.
Mentira e má vontade, porque toda a gente sabe que nenhum de nós sabia raspas de peças de artilharia (seriam o morteiro 60 ou a bazooka peças de artilharia? Agora fiquei um pouco baralhado , mas como eu era um generalista de operações especiais e com a ajuda da idade posso estar a fazer algumas confusões...).
Mas, e os jogos de ping-pong que invariavelmente terminavam por falta de bolas, pois ao longo do jogo iam voando borda fora...) E para os mais privilegiados, o grupo musical (a que o Mexia já se referiu) e cujo repertório de musicas românticas abalava mesmo os mais machões!
E só por pudor termino este evocar de recordações, em que o cinismo apenas serviu para atenuar toda a revolta que ainda hoje sinto por tamanha estupidez, que é mandar mais de 500 jovens para a guerra na véspera de natal, quando nada justificava essa decisão, pois ainda havia para cumprir um mês de IAO.
Felizmente para todos nós, poderemos festejar este Natal com aqueles que para nós são importantes e recordar todos aqueles com quem, infelizmente, já não podemos partilhar esta alegria.
A todos desejo que passem um Santo Natal e um óptimo 2008!!!
João Lima Rodrigues
quarta-feira, 12 de dezembro de 2007
O humor do Estado Português ou a sua preocupação com o bem estar dos seus militares...
O titulo, pode parecer estranho, mas a verdade é que só levando a coisa para o gozo é que podemos recordar certos acontecimentos da nossa vida militar.
Ao que julgamos saber, eu e mais todos os que me acompanharam na viagem do Niassa para a Guiné, foi a preocupação do Estado Português em nos proporcionar um Natal diferente e mais familiar, que nos fez embarcar no célebre Paquete de Luxo Niassa, no dia 21 de Dezembro de 1971, por forma a podermos celebrar, com a grande família militar, as festas natalícias desse ano, na certeza de que muito apreciaríamos esse gesto de carinho e interesse pelo nosso bem estar.
Claro, a maior parte de nós, há mais de 19/20 anos que passavámos o Natal com a família e, por isso, sabendo que estavamos enfadados com a rotina, decidiram dar-nos assim umas Festas diferentes.
Ao que me lembro, o Niassa transportava o nosso Batalhão, e uma ou duas Companhias Independentes, o que já era uma população muito considerável para tão frágil navio.
Lembro-me de ter ido jantar um dia com os soldados do meu pelotão, e ter ficado impressionado e chocado com as condições de transporte daqueles homens.
No chamado bar de Oficiais havia uma banda de música, composta se não me engano por três indivíduos de idade avançada, pelo menos para mim, o que tornava o ambiente ainda mais surreal.
A mesa de pingue-pongue na varanda (não sei o termo náutico, tombadilho?), junto ao bar deixou rapidamente de ter clientes porque, julgo eu, devem ter acabado as bolas para o jogo, no Atlântico ao sabor das ondas.
Lembro-me ainda da excitação do pessoal quando se avistaram peixes voadores, porque tirando a experiência dos mais viajados, para a maior parte era algo que apenas pertencia aos livros de Zoologia.
O calor, quando entrámos no Golfo da Guiné, era insuportável, e somado ao barulho constante das máquinas do navio e ao cheiro a vomitado que tomava conta dos corredores, tornou o Natal a bordo algo de inesquecível, dando razão àqueles que, preocupados com o nosso bem estar, nos fizeram embarcar naquela data para a Guiné.
Chegados ao largo de Bissau, descemos directamente para as LDG, que nos transportaram para a ilha de Bolama, (pelo menos o meu Batalhão), onde fomos recebidos com cânticos do folclore autóctone, nomeadamente, a por demais conhecida canção Periquito vai no Mato.
Ficámos em Bolama cerca de um mês, mas isso é estória para depois.
.
Nota.
Texto, com algumas alterações, já colocado no Luis Graça & Camaradas da Guiné.
O Xitole em 2000
Imagens feitas por um grupo de ex-combatentes que em 2000 se deslocaram à Guine em romagem de saudade.
Dos edifícios que aparecem, só se reconhece a casa do Chefe de Posto, hoje um escola, as Messes dos Oficias e Sargentos e o armazém de víveres.
Tenciono visitar aqueles lugares em Fevereiro próximo e está desde já prometida nova reportagem mais completa
Álvaro Basto
segunda-feira, 10 de dezembro de 2007
Crachás de identificação das unidades do Xitole
O Álvaro colocou, (e muito bem fez), o crachá da CART 3492 no lado direito aqui do nosso espaço do Xitole.
Ficamos agora à espera que aqueles que pertenceram a outras unidades que estiveram no Xitole nos façam chegar os seus crachás para ali serem colocados, "ouviste" David Guimarães?
Não sejam preguiçosos!
Estamos à espera de histórias do Xitole ou relacionadas com as unidades que aí estiveram.
Dois Natais Diferentes
Imagens sem comentários de dois natais diferentes passados na Guiné
Quem souber os nomes dos "artistas" que os diaga. Acho que a comunidade ficaria muito agradada
Quem não se lembra dele? O Toni de Mansambo? Que será feito dele? Era de Lisboa, lembram-se ? Imitava na perfeição outro "colega" o António Mourão.
Nem o azeite "Serrata" faltava na ceia.. fruto de uma mãe zelosa do seu filho combatente.
Imagem histórica com as nossas "bravas" companheiras de desterro
Álvaro Basto
domingo, 9 de dezembro de 2007
Está aí mais um Natal
Pois é malta.
Está aí mais um Natal.
Eramos uma família de desconhecidos a disfarçar mal a mágua de estarmos a passa-lo em alto-mar.
A terra e a familia ainda agora estavam ali e pronto... lá íamos nós para a Guerra, apreensivos e assustados com os relatos que todos conhecíamos dos que por lá ficavam mas dando mostras de alegria nem que para isso fosse preciso entornar mais uns wiskyes no bar do navio.
Tinhamos todos recebido ordens expressas para descermos ao porão e juntarmo-nos aos soldados, acompanhando-os nas batatas e na esclética posta do tradicional bacalhau cozido da ceia de Natal, servida em pratos de metal que tilintavam em algazarra ensurdecedora. Eram os nossos sinos de Natal...
Havia de tudo naquelas mesas compridas. Havia os bem dispostos que disfarçavam bem as suas mágoas e os seus medos, havia os nostálgicos, que choravam como crianças, incapazes de disfarçar o que quer que fosse e até os que alegremente cantavam as musicas populares em moda da altura.
Mas...oh ironia...que ouvia eu?
Acompanhado pela sanfona de um acordeão mal afinado alguém cantava com voz troante o "Adeus Guiné" !.....e nós que nem lá tínhamos chegado ainda.
Mal sabíamos nós que havíamos de passar mais dois natais juntos.
Feliz Natal para todos.
Alvaro Basto
segunda-feira, 12 de novembro de 2007
quarta-feira, 24 de outubro de 2007
Uma "plantação" de minas e a "primeira emboscada"...
Ora bem, entrava eu no aquartelamento vindo da Ponte dos Fulas, desta primeira vez não estive muito tempo – ainda bem, regressei aonde nunca tinha estado a não ser só de passagem – ao aquartelamento… Aí aprendi isto… pois só tinha aprendido que na ponte dos fulas estava um grupo de Combate… e aprendi – “ipso factu et al pare”… porque experimentei e vivi lá… Mas agora era assim, dos três grupos de Combate que ficavam no quartel no Xitole - um ia fazer patrulhamento já bem integrado no mato e nas cercanias da companhia, outro grupo seguia para as Tabancas – missão psico; outro ficava de serviço ao aquartelamento… A Formação e Comando claro sempre no quartel lá olhava pela nossa comida, pela mecânica e enfermaria, por guardar as armas etc etc… e olhava pela Secretaria do Regimento – bonito nome… E enfim – bem vamos semear minas… Bem lá vem o Cmdt de meu Pelotão - saudoso, e diz-me. Guimarães vamos colocar aqui uma minas… Na frente da casa dos Morteiros, do abrigo junto à porta de Armas onde tínhamos o 1º Grupo de combate, o outro que se seguia na mesma direcção, onde estava o 2º grupo, já junto à casa dos morteiros e depois a frente da Casa do Chefe de Posto e Cozinha – tudo foi minado a cerca de 50 a 100 metros… mina Portuguesa M.966 com espoleta de pressão… Não precisávamos de guardas e O Alferes eu e o Quaresma lá colocamos aquilo…
Só queria dizer um segredo de estado – não tinham detonador… mas quem manda pode e obedece quem deve… Portanto uma plantação não profícua e inútil em que só um se acreditava que aquilo funcionava… bem e quem não sabia teria medo – valeu por isso. Afinal nos andamos a fazer aquilo de dia ali bem perto dos da Tabanca – ele informariam os amigos … quiçá meus alguns… porque afinal… ELES SABIAM TUDO…
Bem – outro dia e mais plantação de minas – fui eu com o Ferreira, para a mesma frente mas já do lado das tabancas, acima da casa do Jamil Nasser… Bem essas minas e foram duas do estilo das primeiras já tinham detonador.
Sampaio (saudoso), Quaresma (saudoso que ali perto morreu a armadilhar), Ferreira e eu éramos respectivamente o Alferes e os três Furriéis de Minas e Armadilhas da Carta…
E a vida sucedia-se no dia a dia … mato, tabancas e serviço… levar a comida à Ponte e pronto…
25 de Julho…. esta data “copiei” – estávamos sossegados no Acampamento e o Correia sai com o primeiro Grupo de Combate… foi a ele que tocou… a certa altura que valente tiroteio… naquele altinho que existia em frente onde andamos a armadilhar antes, digamos que entra o nosso quartel e a Ponte… trá… trá.. trá… pum pum… e o Morteiro 81 junto à casa da secção que dele se encarregava fez fogo para as bandas da emboscada… Passa tempo e eis que chega o Grupo de Combate com o Correia (Alferes 2º Cmdt da CART)… Pronto e lá vem a história da emboscada – a 1ª…
Quando já em posição de emboscados – na mata, um dos soldados vira-se para o Alferes e diz: - meu Alferes uma cabra de Mato: - atira-lhe diz o Correia… e aquela Cabra poderemos dizer que foi um “Anjo de Guarda… porque por detrás dela estava mesmo um grupo de IN… estes sentiram-se detectados, atiraram e fugiram… parece que ainda tiveram feridos, sendo que a nossa tropa não teve nem uma beliscadura….
Ainda bem….
O Soldado que detectou o Anjo mais tarde veio com o prémio Governador-geral à metrópole. Pronto, foi a maneira de dar uma prenda.
Um abraço, David Guimarães
quinta-feira, 18 de outubro de 2007
Ponte dos Fulas - meu primeiro destino de guerra
As "suites" com as respectivas valas
Ao fundo, junto à ponte, o "fortim" de segurança imediata
No ano de 1970, 16 de Maio pelo fim de tarde sai de Viana do Castelo um Comboio com um Batalhão rumo a Alcântara… parou três vezes… uma em cima da ponte de Viana (um militar desenquadrado das formaturas – chegou na hora do comboio partir e (pendurou-se na plataforma da porta)… como as portas estavam trancadas – ELES LÁ SABIAM PORQUÊ – o alarme toca e o militar então entrou para a carruagem em cima da ponte… Novamente em marcha fomos parar em Campanhã… Ali aguardavam os nossos Comandos o CMDT da Unidade mãe – RAP2 – e fizeram-se as despedidas… Entretanto mudou-se a locomotiva também… E lá partimos e surge a terceira paragem e última do Comboio…. Estação Marítima de Alcântara… Era o dia 17 de Maio, um navio embandeirado e muito velho (Carvalho Araújo), nós a entrar para dentro daquela coisa… uma festa dos diabos no meio de tantos choros… e lá fomos…. e era dia 25 de Maio e lá estávamos nós a desembarcar ali… numa água muito turva e um clima altamente quente e abafado… Trajecto até Brá e pronto lá nos instalámos nas tendas de campanha… Uns dias depois, poucos, aí vamos nós ruma ao rio e entramos naquele grande barco de ferro… que coisa…. Era noite… Uma Berliet, um Batalhão inteiro e tudo o mais… as ideias, as saudades e começa aquela coisa a andar… Uma LDG que passadas umas horitas atracava no cais do Xime… onde saiu tudo… Já era dia claro que era… a noite tinha-se passado naquela excursão rio acima…. Ouviamos o termo pira… os deditos no ar… Ordem…. Viaturas e mais viaturas… a Cart 2715 fica aqui as outras embarcam nas viaturas… (CCS, 2714 e 2716)… e lá começou aquilo a andar… Bambadinca… a CCS desce aqui as outras seguem… mais dedos no ar e chamamento de piras…. Recomeçou a marcha…. A coluna volta a parar…. Aqui é Mansambo, desça a 2714…. A outra segue…. Uma Companhia que ia bem para mais longe…. A 2716 que continua… sempre no mato víamos de um e de outro lado tropa… que nos saudavam com os dedos de pira… até que surge uma voz de alguém que nos acompanhava… Isto aqui é vosso – A PONTE DOS FULAS… mais uma roda de piras e... continuamos mais aqueles 3 km… e no terreno meio inclinado aí estávamos nós Xitole…. Bem aqui e ali alojem-se … aqui sargentos ali oficiais…. Vivam estejam bem, sejam bem vindos, eu também já fui pira… a minha farda já foi nova etc etc…
Mas a Ponte dos Fulas tinha lá tropa… - quem me dera não ir para lá… pensei eu… ali deve ser um desterro…. Tinha-se passado um dia e ordem de sorteio… quem vai para a Ponte dos Fulas? 3º Grupo de Combate – neste momento vão só duas secções que serão enquadradas pelas duas da Cart que fomos substituir… E la foram as duas secções – por um mês. Não é que uma das secções foi exactamente a minha….
Comecei assim a minha guerra do Xitole não aí, mas na Ponte dos Fulas… Onde cedo conheci o Mamadu pescador, que era o único sinal de civil que por lá aparecia quando ia à Pesca para o Pulon.. o tal rio que numa época quase nem corria e noutra era um grande rio… mais nada…
Dizia-me um Furriel já velhinho – que me ensinava estar na Ponte: - aqui não fazes nada, é só vigiar e deixar passar o tempo – e de noite se estiveres com atenção ouvirás de vez enquando o batuque …o deles claro… apontando-me os lados de Satecuta….. Isto foi verdade… eu ouvi mais vezes sim, portanto não era treta de velho…
Como me tinha esquecido dos meus Valiuns no Quartel do Xitole pedi ao Furriel Ferreira, meu camarada de curso e também de minas e armadilhas – que providenciasse para ao outro dia me lá levarem a pílula…
Não há dúvidas ao outro dia lá tive a pílula e o negócio de estar ali um mês destacado a fazer – nada… Mas fez-me bem começar na PONTE DOS FULAS.
David Guimarães
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